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Margem e custos

Como precificar produto importado: câmbio, impostos de importação e a margem que sobra no marketplace

Para precificar um produto importado, você precisa primeiro do custo dele já nacionalizado, e não do preço em dólar vezes o câmbio. Numa compra por remessa feita com CNPJ, a regra geral da Receita é 60% de Imposto de Importação e o estado cobra ICMS de 17% ou 20%, calculado por dentro. Uma capa de celular de US$ 1,20 com câmbio de R$ 5,50 parece custar R$ 6,60. Com frete e impostos, custa R$ 15,37. Precificar pelo número errado leva a um anúncio que dá 18% de prejuízo em cada venda.

O importado engana porque o preço do fornecedor é baixo e chama atenção. Só que, entre a fábrica e a sua prateleira, entram frete, seguro, câmbio, dois ou mais impostos e despesas de quem desembaraça a mercadoria. Vou montar a conta inteira com um exemplo, mostrar onde colocar a folga do câmbio e como chegar ao preço no Mercado Livre e na Shopee.

#Quem pode importar para revender?

Só empresa. A Receita Federal diz, nas perguntas e respostas sobre remessas atualizadas em agosto de 2026, que a pessoa física não pode importar bens que, "pela sua quantidade, frequência, natureza ou variedade", permitam presumir finalidade comercial. Não existe um número de peças que libera: a análise é caso a caso.

Para a empresa há dois caminhos:

  • Remessa (correio ou courier): a empresa pode importar para revenda até US$ 150 mil por ano, com fatura e documentos de transporte em nome do CNPJ, e só de produtos que não exigem licença prévia de importação.
  • Importação formal: exige habilitação no Siscomex, o "Radar". O pequeno importador costuma cair na modalidade Limitada, com teto de US$ 50 mil a cada 6 meses.

Se você ainda vende com CPF e pensa em trazer mercadoria de fora, este é o primeiro passo, antes de qualquer conta de preço. Expliquei a escolha em vender com CPF ou CNPJ no Mercado Livre.

#O que entra no custo de um produto importado?

Tudo o que você paga até o produto chegar ao seu estoque, dividido pelo número de unidades. A ordem da conta é sempre a mesma:

  1. Valor aduaneiro: preço do produto + frete internacional + seguro, em dólar. É sobre ele que os impostos incidem.
  2. Câmbio: a Receita usa a taxa da data de registro da declaração de importação, não a do dia em que você pagou o fornecedor.
  3. Impostos de importação: variam pelo caminho (remessa ou formal) e pelo código do produto, a NCM (Nomenclatura Comum do Mercosul, o "CPF" fiscal da mercadoria).
  4. Despesas até o seu estoque: taxa do courier ou do despachante, armazenagem no porto ou aeroporto, frete do porto até você.
  5. Divisão pelas unidades que chegaram boas. Peça quebrada também é custo.

O passo 3 é o que mais pesa e o que mais gente erra, porque o ICMS da importação é calculado "por dentro": ele faz parte da própria base. A conta não é "valor × 17%", e sim "valor ÷ 0,83 − valor". A Lei Complementar 87/1996, no art. 13, manda incluir na base o valor da mercadoria, o Imposto de Importação, o IPI e as demais despesas aduaneiras, e o próprio ICMS.

#Quanto custa uma importação por remessa, na conta fechada?

Imagine uma empresa que compra 200 capas de celular a US$ 1,20 cada num site estrangeiro, com US$ 50 de frete. Pela leitura das páginas da Receita, a empresa fica na regra geral do Regime de Tributação Simplificada: 60% sobre o valor aduaneiro, sem a faixa de 0% até US$ 50 e sem a dedução de US$ 30 do Remessa Conforme, que vigoram desde 12/05/2026 e são descritas para pessoa física. Vamos usar ICMS de 17% e câmbio hipotético de R$ 5,50.

Etapa Conta Valor
Produto 200 × US$ 1,20 US$ 240,00
Frete internacional US$ 50,00
Valor aduaneiro produto + frete US$ 290,00
Imposto de Importação (60%) 290 × 0,60 US$ 174,00
Base do ICMS (por dentro) (290 + 174) ÷ 0,83 US$ 559,04
ICMS (17%) 559,04 − 464 US$ 95,04
Total em dólar US$ 559,04
Total em reais (R$ 5,50) 559,04 × 5,50 R$ 3.074,70
Custo por capa ÷ 200 R$ 15,37

O total em dólar ficou 1,93 vez o valor aduaneiro. Ou seja: na remessa com CNPJ, cada dólar pago lá fora vira quase dois dólares aqui dentro, antes da taxa do courier. Se o seu estado cobra 20% de ICMS, a base fica em US$ 580 e o custo sobe para R$ 15,95 por capa.

Some ainda o que o courier ou a transportadora cobrarem pelo desembaraço, que muda de empresa para empresa. Mostrei como cada despesa entra no custo em preço de custo: o que entra além da nota.

#E na importação formal, quais impostos entram?

Na importação formal, com Radar, a lista é maior e as alíquotas dependem da NCM. Por isso não existe uma "taxa média de importação" que sirva para qualquer produto.

Tributo Sobre o quê Alíquota
Imposto de Importação valor aduaneiro pela NCM, na Tarifa Externa Comum
IPI valor aduaneiro + II pela NCM, na tabela do IPI
PIS-Importação valor aduaneiro 2,1% (regra geral)
Cofins-Importação valor aduaneiro 9,65% (regra geral; +0,6 ponto em 2026 em NCMs específicos)
AFRMM frete marítimo 8%
ICMS tudo acima + despesas, por dentro alíquota do estado
Taxa do Siscomex por declaração valor fixo da Receita

As alíquotas de PIS e Cofins são as da Lei 10.865/2004, e o AFRMM (taxa de renovação da Marinha Mercante) só existe quando a carga vem de navio. Para saber o Imposto de Importação e o IPI do seu produto, você precisa da NCM certa: peça ao fornecedor, confira com o despachante e não chute. Uma NCM errada muda o imposto e pode travar a mercadoria na alfândega.

Um detalhe que pesa no regime: no Simples Nacional, os tributos da importação entram inteiros no custo. Fora do Simples, parte deles pode virar crédito e sair do custo. Essa conta é do seu contador, e vale fazer antes da primeira compra.

#Como chegar ao preço de venda do importado?

Com o custo nacionalizado na mão, a conta é a mesma de qualquer produto: você parte da margem que quer e divide pelo que sobra do preço depois de comissão, imposto e anúncio. A fórmula do preço de venda tem o passo a passo.

Para a capa de R$ 15,37, com 100 gramas, comissão de 13% no Clássico do Mercado Livre (a tarifa de Capas de celular que o Mercado Livre mostrava em 20/10/2026), imposto de 6% e R$ 0,60 de embalagem, o preço para 20% de margem é R$ 37,41. Na Shopee, com 20% de comissão e R$ 4,50 de taxa fixa, é R$ 37,91.

Na prática. Imagine que a mesma loja precificasse pelo custo "de catálogo": US$ 1,20 × R$ 5,50 = R$ 6,60. A conta de 20% de margem devolveria R$ 23,03 no Mercado Livre. Com o custo real de R$ 15,37, cada venda a R$ 23,03 deixaria R$ 4,16 de prejuízo: comissão de R$ 2,99, envio de R$ 6,85, imposto de R$ 1,38 e embalagem já somam quase R$ 12, antes do produto. Ela venderia bem, porque estaria R$ 15 abaixo dos concorrentes, e perderia dinheiro em cada pacote.

#Quanto de folga colocar para o câmbio?

O suficiente para que o próximo lote ainda dê a margem mínima. O dólar que importa não é o da compra que já chegou, é o da compra que você vai fazer com o dinheiro dessas vendas.

Um teste simples: refaça o custo com o câmbio 10% acima. No exemplo, a R$ 6,05 o custo por capa vai para R$ 16,91. Veja o que acontece com o preço de R$ 39,90, um pouco acima do mínimo calculado:

Cenário Custo por capa Margem no Mercado Livre a R$ 39,90 Margem na Shopee a R$ 39,90
Câmbio de R$ 5,50 R$ 15,37 23,8% 22,7%
Câmbio de R$ 6,05 (+10%) R$ 16,91 20,0% 18,9%

A R$ 39,90, o preço já carrega a folga: se o dólar subir 10%, a margem no Mercado Livre continua nos 20%. Se você tivesse publicado a R$ 37,41, o lote seguinte venderia abaixo da meta sem ninguém perceber. O tamanho da folga é decisão sua, mas ela precisa ser calculada, e não um "arredonda para cima" no olho. Vale cruzar com a margem mínima que o seu marketplace exige.

E quando o câmbio cai, não corra para baixar o preço. Venda o estoque caro pelo preço que ele precisa e reprecifique quando o lote mais barato chegar.

#Como atualizar o custo a cada lote?

Cada compra tem um custo diferente, porque o câmbio, o frete e até a NCM aplicada mudam. Por isso a regra contábil (CPC 16) pede custo médio ponderado ou "primeiro que entra, primeiro que sai" na hora de medir o estoque. Na prática da loja:

  1. Ao receber o lote, calcule o custo nacionalizado por unidade, com a tabela acima.
  2. Some ao estoque que sobrou do lote anterior e tire o custo médio: (unidades antigas × custo antigo + unidades novas × custo novo) ÷ total de unidades.
  3. Refaça a margem dos anúncios com esse custo novo, no Mercado Livre e na Shopee.
  4. Ajuste o preço dos anúncios que ficaram abaixo do mínimo antes de mandar o próximo pedido ao fornecedor.

O erro mais comum na planilha de quem importa é o custo congelado na primeira compra. Ele estava certo dois anos atrás e hoje esconde uma margem que já não existe. Escrevi sobre esse efeito em custo médio e o erro que infla a margem.

#Onde a Milewa ajuda com o importado

Para testar um preço antes de publicar, use a calculadora da Milewa: informe o custo nacionalizado, o peso e a margem que você quer, e ela devolve o preço para o Mercado Livre e para a Shopee, já com o envio da faixa certa ou a taxa fixa.

Para a loja inteira, a Milewa guarda o histórico de compras de cada produto e calcula o custo médio a cada lote lançado. Com isso, a margem de cada pedido sai com o custo daquele momento, não com o da primeira importação. Quando o lote novo chega mais caro e algum anúncio cai abaixo do piso, ele aparece com o preço mínimo para voltar à meta. E se você compra de catálogo em PDF, o módulo de Fornecedores (planos Pro e Scale) lê os preços do fornecedor e sugere o preço de venda para a sua margem nos dois canais. O custo nacionalizado é você quem informa: a Milewa não calcula imposto de importação nem substitui o despachante.

#Perguntas frequentes

Como calcular o custo de um produto importado?

Some o preço pago ao fornecedor, o frete e o seguro internacional (isso forma o valor aduaneiro), converta pelo câmbio da data da declaração de importação e acrescente os tributos e as despesas até o produto chegar ao seu estoque. Divida pelo número de unidades. Numa compra por remessa com CNPJ, o Imposto de Importação de 60% e o ICMS por dentro quase dobram o valor em dólar.

Pessoa física pode importar para revender no marketplace?

Não. A Receita Federal diz que a pessoa física não pode importar bens que, pela quantidade, frequência, natureza ou variedade, permitam presumir finalidade comercial. Quem quer revender precisa importar como empresa, com documentos em nome do CNPJ, por remessa (até US$ 150 mil por ano) ou pela importação formal.

Quanto de imposto paga uma compra internacional por remessa feita por empresa?

Pela leitura das páginas da Receita em outubro de 2026, a empresa fica na regra geral do Regime de Tributação Simplificada: 60% de Imposto de Importação sobre o valor aduaneiro, sem a faixa zero nem a dedução de US$ 30 do Remessa Conforme, que são descritas para pessoa física. Some o ICMS de 17% ou 20%, conforme o estado, calculado por dentro. Confirme o enquadramento da sua compra com o despachante ou o contador.

Quanto de folga de câmbio colocar no preço do importado?

Não existe número oficial. Uma regra prática é testar o preço com o dólar 10% acima do que você pagou: se a margem ainda fica acima do seu mínimo, o preço aguenta a próxima compra. Se não fica, ou você sobe o preço agora ou aceita que o próximo lote vai vender com margem menor.

#Fontes

Taxa de marketplace muda. Os números deste artigo valem para a vigência citada — antes de decidir preço, confira a tabela do dia na sua conta.

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