O imposto que sobe sozinho: por que a sua margem encolhe quando a loja cresce
No Simples Nacional a sua alíquota não é fixa: ela acompanha o faturamento acumulado dos últimos doze meses. Uma loja de comércio que cresce de R$ 500 mil para R$ 2 milhões vê a alíquota efetiva subir de cerca de 6,7% para perto de 9,9%. São mais de três pontos de margem que somem de todos os produtos ao mesmo tempo, sem nenhuma mudança de preço, de custo ou de taxa do marketplace.
Ninguém avisa. O produto continua o mesmo, o fornecedor continua o mesmo, e a loja simplesmente começa a ganhar menos por venda enquanto vende mais.
#Alíquota nominal e alíquota efetiva não são a mesma coisa
Essa confusão custa caro.
A nominal é o percentual que aparece na tabela do anexo, por faixa de faturamento. A efetiva é o que você realmente paga. Da segunda faixa em diante ela é menor que a nominal, porque existe uma parcela a deduzir; só na primeira faixa, até R$ 180 mil, as duas coincidem.
A conta é esta: multiplique o faturamento dos últimos doze meses pela alíquota nominal da faixa, subtraia a parcela a deduzir, e divida o resultado pelo mesmo faturamento de doze meses.
Uma loja de comércio com R$ 600 mil acumulados cai numa faixa de 9,5% nominal com dedução de R$ 13.860. A efetiva fica em 7,19%. Quem usa 9,5% na planilha de margem está subestimando o lucro. Quem usa 4%, porque era a alíquota de quando abriu a empresa, está superestimando.
#Como a alíquota sobe com o crescimento
Olhe o mesmo produto de uma loja de comércio em quatro momentos da vida dela:
| Faturamento em 12 meses | Alíquota efetiva | Imposto numa venda de R$ 100 |
|---|---|---|
| R$ 300.000 | 5,32% | R$ 5,32 |
| R$ 500.000 | 6,73% | R$ 6,73 |
| R$ 900.000 | 8,20% | R$ 8,20 |
| R$ 2.000.000 | 9,94% | R$ 9,94 |
Numa venda de R$ 100 com 20% de margem, passar de R$ 500 mil para R$ 2 milhões de faturamento anual tira R$ 3,21 de cada venda. É 16% do lucro daquele produto, evaporado pelo próprio sucesso.
Confira as faixas e deduções vigentes com o seu contador antes de usar esses números, porque a tabela é lei e muda por lei.
Na prática. Uma loja de utilidades estava em crescimento forte e reprecificou o catálogo em janeiro usando a alíquota efetiva daquele mês. Em setembro, com o faturamento de doze meses bem maior, a alíquota tinha subido quase dois pontos. A loja tinha aumentado o faturamento em 40% e o lucro tinha crescido bem menos do que ela esperava, sem que nada visível tivesse mudado.
#O erro de calcular imposto sobre o valor recebido
Tem outro tropeço comum, e ele anda junto com o primeiro.
A receita para fins de tributação é o valor da venda ao consumidor, antes das taxas do marketplace. Se o cliente pagou R$ 100 e o marketplace te repassou R$ 74, você é tributado sobre R$ 100. Comissão e custo de envio são despesas suas, não redução de receita.
Quem calcula imposto sobre o líquido repassado acha que paga menos do que paga, e o desvio é grande justamente nos produtos baratos, em que a taxa representa mais do preço. Escrevi sobre esse efeito no repasse da Shopee em outro artigo.
#Alíquota diferente por produto
Nem todo item tem a mesma carga. Produtos com substituição tributária de ICMS, monofásicos de PIS e Cofins e alguns segmentos específicos têm tratamento próprio, e isso pode reduzir bastante a mordida de determinados SKUs.
Se a sua loja mistura categorias, usar uma alíquota única para tudo distorce a margem nos dois sentidos: você acha que ganha pouco no que é tributado de leve e muito no que é tributado cheio. Vale pedir ao contador a relação dos seus SKUs com tratamento diferenciado e cadastrar a alíquota correta por produto, e não uma média para a loja inteira.
#Reforma tributária: o que dá para fazer hoje
A transição para o novo modelo de IBS e CBS está em curso e vai mudar a forma de calcular tributo sobre consumo nos próximos anos, inclusive para quem está no Simples, que terá escolhas a fazer sobre regime e crédito.
Ninguém precisa reprecificar hoje por causa de uma regra que ainda está sendo implantada. O que vale fazer agora é ter o imposto separado dentro da margem de cada produto, em vez de diluído num percentual genérico. Quando a regra mudar, você troca um número e vê o efeito. Quem tem imposto embutido "por estimativa" vai ter que remontar tudo.
Dentro da Milewa a alíquota entra por produto e a margem de cada pedido já sai com ela descontada. E se você quiser testar o efeito de uma alíquota diferente num preço específico, a calculadora de lucro aceita esse campo direto.
#Perguntas frequentes
Qual alíquota do Simples Nacional usar para calcular margem em marketplace?
A alíquota efetiva, nunca a nominal da faixa. A efetiva é calculada multiplicando o faturamento dos últimos 12 meses pela alíquota da faixa, subtraindo a parcela a deduzir e dividindo tudo de novo pelo faturamento dos 12 meses. Da segunda faixa em diante ela é menor que a nominal, e muda todo mês conforme o acumulado.
O imposto incide sobre o valor que o marketplace me repassa?
Não. A receita para fins de tributação é o valor da venda ao consumidor, antes das taxas do marketplace. Comissão e custo de envio são despesas suas, não redução de receita, então calcular imposto sobre o líquido recebido subestima o valor devido.
Por que a margem cai quando a loja cresce, mesmo vendendo os mesmos produtos?
Porque a alíquota efetiva do Simples sobe conforme o faturamento acumulado dos últimos 12 meses avança de faixa. Uma loja de comércio que sai de R$ 500 mil para R$ 2 milhões vê a alíquota efetiva subir de cerca de 6,7% para perto de 9,9%, o que tira mais de três pontos da margem de todos os produtos ao mesmo tempo.
#Fontes
- Lei Complementar nº 123/2006 — Anexos do Simples Nacional
- Receita Federal — Portal do Simples Nacional
Taxa de marketplace muda. Os números deste artigo valem para a vigência citada — antes de decidir preço, confira a tabela do dia na sua conta.
Quer ver essa conta com os seus números?
A Milewa puxa seus pedidos do Mercado Livre e da Shopee, aplica taxa, frete, imposto, ADS e o seu custo, e mostra a margem de cada pedido e de cada SKU. Dá para começar com a calculadora e depois conectar a loja.